terça-feira, 28 de julho de 2009

Gravidez está no topo da lista

















Quase 60% das internações de adolescentes em hospitais de Cuiabá entre os anos de 2000 e 2008 se refere aos casos de gravidez, parto e puerpério. A maioria tem idade a partir de 15 anos, estudou de 8 a 11 anos, o que mostra que não falta informação, e 96% delas são solteiras, o que significa que a família acabou assumindo a responsabilidade pelo bebê. Apesar de terem ido a uma média de 4 a 7 consultas do pré-natal, o que é positivo, o cartão de vacina geralmente estava desatualizado o que mostra a vulnerabilidade às doenças sexualmente transmissíveis (DSTS), como a HEPATITE B, e a AIDS. Os dados integram o primeiro relatório feito pelo Núcleo de Estudos Epidemiológicos da Secretaria Municipal de Saúde (SMS) que vai apontar soluções viáveis para esse problema.



A enfermeira técnica Gilda Colman Soares, uma das técnicas responsáveis pelos dados, explica que nesse período 82% das meninas precisou de internação em razão da gravidez, valor considerado altíssimo se comparado com as demais causas que juntas atingiram 18%, uma média de 2 a 3% cada uma delas. A questão envolve principalmente falta de educação, no sentido amplo da palavra, de orientação e acompanhamento dentro de casa, e proximidade com a escola. Sem propostas atrativas aos alunos, as instituições de ensino perderam espaço e deixaram de cumprir seu papel que vai além de instruir, precisam colaborar também na formação cidadã. "Antigamente, os pais estavam integrados à comunidade escolar, agora o que temos são práticas isoladas, os adolescentes estão por aí largados e sem qualquer noção de responsabilidade com a sociedade ou o próprio corpo".



Preste atenção, o que mais se vê ao andar pelos bairros da periferia da cidade são meninas grávidas, algumas com apenas 13 anos e no segundo filho. As jovens grávidas - e muitas vezes já separadas do pai da criança, andam pelas ruas a procura de novos pretendentes. Para elas, "fazer a fila andar" nos relacionamentos iniciados precocemente é absolutamente normal. Pelo menos é o que pontua o ginecologista que atende na unidade de saúde do bairro Jardim Independência, Luiz Augusto Menechino, que não se conforma com a situação. "A gente tenta intervir individualmente, mas o que leva a um quadro como esse é um conjunto de fatores, sozinho não posso transformar a realidade".



Como prevenir? - Desestrutura familiar, banalização do sexo e falta de perspectiva de vida. Para falar em prevenção, mudanças relevantes devem acontecer nas áreas familiar e a educacional. Pai e mãe precisam estar mais presentes. Dar o exemplo e tentar quebrar com o ciclo da pobreza, que culturalmente leva os filhos a cometerem os mesmos erros. A palavra chave nessa hora é "estudo", que não se resume às salas de aulas pouco atrativas, mas em opções de vida.



Os adolescentes precisam ter acesso também ao lazer, à cultura, às várias práticas de esportes, bibliotecas e outros tipos de saber, como cinema, museus, feiras, apresentações de orquestra. Outro ponto importante é filtrar o que está exposto hoje na mídia em relação à sexualidade e à violência. Músicas, danças, filmes, publicidade e novelas que estimulam a descoberta precoce dos prazeres do sexo. Isso sem mostrar que o ato envolve responsabilidades, afinal, é uma porta para as doenças e a gravidez. Ter um filho requer maturidade emocional e também financeira.



O ginecologista Luiz Augusto Menechino observa que para se livrarem de uma situação muitas vezes "promiscua", onde 10 pessoas convivem numa mesma casa e sem condições dignidades, a adolescente sonha em se libertar a partir da gestação. Quer construir uma nova família, imaginando que será mais bem sucedida e feliz. Só que na prática, muitas vezes acontece o contrário. O jovem casal acaba se limitando muito mais, deixando de fazer uma faculdade ou cursos que possam prepará-los melhor para o mercado de trabalho, cada vez mais exigente. "Elas chegam ao consultório radiantes, muitas desejaram engravidar, tanto que quando falo sobre o CONTRACEPTIVO geralmente rejeitam a ideia.



A pediatra Alda Elizabeth Iglesias, que é responsável pelo projeto "Adolescer" na Secretaria Municipal de Saúde, acredita que falta à essas adolescentes um projeto de vida, noções de autocuidado e fortalecimento da autoestima. É comum os hormônios sexuais estarem em ebulição, independente da classe social. O que não pode continuar é a ausência de canalização dessa energia. Nessa idade, eles e elas precisam pensar no vestibular, na peça da escola, viagens estudantis ou numa apresentação de coral. "A magia da descoberta se torna um fardo na vida inclusive de muitos rapazes, que ao fugirem à responsabilidade, acabam com remorso".



Exemplos precoces - Aos 17 anos, M.S., já é mãe do pequeno Guilherme, que tem 15 dias de vida. Sem dormir direito à noite, ela conta que tem sido um desafio encarar o trabalho da maternidade. Ainda bem que por enquanto está na casa dos pais e recebe apoio da família, na hora de dar banho, trocar e amamentar o bebê. Terminou o 3º ano do Ensino Médio no ano passado, mas não faz planos de dar continuidade aos estudos, se for trabalhar algum dia não pensa numa área específica. O marido é frentista de posto, mas é provável que se mudem ainda este mês para um sítio em Barão de Melgaço. "Foi essa vida que escolhi, estou muito feliz".



A mãe dela, Eloisa Albina de Souza, 32, moradora do Jardim Vitória, não gostou da atitude de filha que engravidou porque estava usando errado o anticoncepcional. Conta que sempre investiu na educação da jovem, gastou muito com a formatura e sempre sonhou que ela fizesse faculdade. Foi na sexta (10) ao Programa Saúde da Família (PSF) atrás de remédio para a filha não engravidar novamente. Uma avó jovem, que teve o primeiro filho aos 19 anos, final da adolescência. "Espero que ela tenha consciência do quanto é importante se cuidar, porque não vou de forma alguma assumir a responsabilidade no lugar dela".



Preocupada com as adolescentes, a enfermeira do PSF 2 do bairro, Evineide Albuez, faz questão de acompanhar a agente de saúde Nildéia Chagas até a casa de muitas meninas. Vai levar informações sobre a amamentação, cuidados com o bebê, alimentação adequada, cartão de vacina e planejamento familiar. Entre todas as grávidas em atendimento hoje na instituição, em média 60% têm de 12 a 19 anos. O mais assustador é que mesmo na mais inteira condição de pobreza, muitas querem ficar grávidas. "Elas estão cansadas de nos ouvir, tanto que se começamos a dar muitos conselhos logo se cansam, vão embora".



Prestes a ter o bebê, V.S.P., 19, que no momento em que buscou o PSF estava com a pressão alta, conta que está morando junto com o rapaz há quase um ano e que o filho foi planejado, logo depois que ela terminou o Ensino Médio. Pretende ficar em casa 2 ou 3 anos, cuidando da criança, para depois pensar no vestibular. O sonho é fazer enfermagem. Não acha que o bebê vá atrapalhar, mas exigirá mais responsabilidade. "Ser mãe é maravilhoso em qualquer idade, quis que fosse agora, estou contente com a chegada dele, que se chamará Lucas".

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A sua opinião é importante para mim.

Quem sou EU?

Minha foto
Ubatuba, Litoral Norte, Brazil
Sou a Silmara, uma pessoa simples, risonha e de bem com a vida! Sou Coordenadora do Blablablá PositHivo, desenvolvido em parceria com a Prefeitura Municipal de Ubatuba, que tem como objetivo levar informações de DST/Aids em escolas e comunidades através do meu depoimento.Como coordenadora de literatura da Fundart criei o Projeto Psiu com a finalidade de descobrir e apoiar novos autores.Fui escritora sobre o Projeto Furnas, em Ubatuba.Tenho 25 crônicas classificadas em Concursos nacionais,inclusive o conto O Menininho Perdido classificado no concurso de Antologia Ponte dos Sonhos, na Alemanha e o poema Brava Gente de Ubatuba em Guadalaraja.Sou autora da cartilha Ambiente Vivo e do livro Flash, Você sabe o que eu tenho? Eu tenho amores, dores,senhores, sabores...Eu tenho atitude.E VOCÊ? Silmara Retti é madrinha do DTPK crew

Camisinha masculina?Como usar.