
A receita, na teoria, é simples: pegue alguns “pedaços” do HIV que o corpo humano consegue identificar e combater, por meio das suas células de defesa, com alguma eficácia. Reúna essas porções do retrovírus em uma mesma estrutura. Em seguida, insira essa estrutura criada artificialmente no organismo do hominídeo. A expectativa, após o término do processo, é de que o corpo apresente uma resposta imunológica altamente eficaz ao vírus causador da Aids. Isso caso o organismo imunizado seja exposto ao HIV, é claro.
Esse é um resumo, didático, da pioneira pesquisa brasileira para o desenvolvimento de uma vacina para soronegativos. “Aparentemente, a capacidade de gerar resposta imune com esse tipo de abordagem realmente é muito maior do que quando comparada com uma vacina convencional feita com proteínas inteiras do HIV”, explica o médico Edecio Cunha Neto, coordenador do estudo que começou em 2001. Desde o início da pesquisa, segundo o imunologista da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), foram gastos entre 800 mil e 1,2 milhão de reais.
Na mesma entrevista, Edecio Cunha Neto disse que o fracasso de diversos estudos “criou um desalento grande na comunidade de HIV e nos pesquisadores de vacina”. O médico lembrou do cancelamento, em 2007, de um grande estudo realizado pela companhia farmacêutica Merck Sharp & Dohme . “Hoje o quadro mundial é: não existe uma vacina eficaz”, resumiu.
O médico explica que, para ser eficaz, o modelo de vacina já abandonado pela companhia farmacêutica Merck precisaria que as células de defesa reconhecessem “um número muito grande de regiões do HIV”.
Edecio Cunha Neto espera acertar onde o estudo da Merck falhou. Ao invés de utilizar proteínas inteiras do HIV, com o intuito de criar uma resposta imune do corpo, a pesquisa desenvovida pela Faculdade de Medicina da USP vai usar fragmentos menores do vírus. Fragmentos, ressaltou o médico, “que nós já sabíamos que eram antigênicos, muito antigênicos”.
O experimento brasileiro já começou a ser testado em animais. “Nós introduzimos essa vacina em camundongos”, disse Edecio Cunha Neto.
“Agora nós estamos começando a fazer alguns experimentos com macacos”, adiantou Edecio Cunha Neto, referindo-se ao estágio em que se encontra a pesquisa da vacina para soronegativos. O imunologista brasileiro explicou que não há hoje, no país, nenhum laboratório apto a desenvolver pesquisas com animais infectados pelo HIV. O próximo passo, explicou o médico Edecio Cunha Neto, é testar a vacina em seres humanos. Mas isso não vai acontecer antes de 2010. “Nós não temos recursos hoje ainda para o ensaio em humanos porque o custo é muito elevado”, esclareceu.

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