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O risco de infecção por HIV, vírus causador da Aids, durante transfusão de sangue no Brasil é 10 vezes maior do que em países desenvolvidos, de acordo com estudo da Fundação Pró-Sangue de São Paulo. Isso significa que, por ano, entre 50 e 100 pessoas podem ser contaminadas ao receber sangue doado.
O coordenador nacional da Política de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde, Guilherme Genovez, admite que a estimativa está certa. E atribui o problema à associação de dois fatores - falta de um exame mais potente para diagnosticar precocemente a presença do vírus e o fato de o brasileiro ainda recorrer à doação para saber se é ou não portador do HIV.
"Enquanto esses problemas não forem resolvidos, os índices dificilmente vão baixar", emenda a pesquisadora Ester Sabino, médica da Fundação Pró-Sangue e investigadora do Reds, um estudo que está em curso no país sobre a prevalência de doenças relacionadas à doação, financiado pelo Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês).
Os pesquisadores consideram que 1 em cada 60 mil bolsas de sangue coletadas esteja contaminada por HIV e não seja identificada no teste de controle realizado nos bancos de sangue. No país, são usados 3 milhões de bolsas de sangue, em média, por ano - cada uma pode ser utilizada até por duas pessoas. "Embora pareçam ruins quando comparados a países desenvolvidos, os índices brasileiros são bons. A qualidade do sangue brasileiro é muito boa, principalmente quando lembramos o que era no passado, antes de haver maior controle. Mas podemos melhorar", afirma Ester.
A tecnologia atual dos testes para avaliar a qualidade do sangue permite detectar a presença do HIV somente 12 dias após a infecção. "Se o doador tiver sido contaminado poucos dias antes, o teste dará negativo, a bolsa será usada e o receptor corre o risco de ser contaminado", explica Genovez.
O problema, chamado janela imunológica, ocorre também com a hepatite - e, nesse caso, o risco é ainda maior. A janela imunológica é de 70 dias. Isso explica em parte as estatísticas atuais de hepatite C no país. A transfusão de sangue foi responsável por 12,3% dos novos casos da doença em 2008.
Em países desenvolvidos, a janela imunológica é reduzida pelo uso de um exame batizado de "Nat", que em vez de identificar a presença dos anticorpos no sangue, como os exames tradicionais, procura encontrar traços do vírus. O Brasil deverá passar a adotar essa tecnologia a partir do próximo ano, quando deve ficar pronto o teste desenvolvido por Biomanguinhos. Com isso, a janela imunológica dos testes para aids deverá cair de 12 para 8 dias. No caso da hepatite, ela deve baixar de 70 para 14 dias. "Será um salto significativo", garante o coordenador do programa de sangue.
Ainda neste mês de julho, um estudo multicêntrico deve ser iniciado para avaliar o sistema de análise com a nova tecnologia. Nesta etapa, amostras de sangue deverão ser enviadas para plataformas distribuídas em várias partes do país. Se não houver atraso, o pedido de registro deve ser feito ainda neste ano.
Ester não tem dúvida de que o teste pode ajudar a reduzir o risco. Mas assegura haver outra medida mais importante: a melhora da qualidade do sangue do doador. Um trabalho feito pela pesquisadora mostra as razões da preocupação. A prevalência do HIV no sangue de doadores voluntários é maior do que da população em geral, 0,6% ante 0,2%. "Apesar das entrevistas e dos métodos usados, há pessoas que buscam o banco de sangue apenas para fazer a testagem do HIV", conta.
A coordenadora do Programa Nacional de DST/Aids, Mariângela Simão, diz que o número dos que buscam a doação de sangue como alternativa ao teste do HIV vem caindo e deve reduzir ainda mais com o aumento da oferta do teste rápido. "Os serviços estão mais amigáveis, há uma redução das barreiras para a realização do exame". Ela conta haver uma preocupação para que as equipes sejam bem treinadas para fazer o acolhimento de possíveis doadores.
Polêmica
As restrições de doação de sangue de homens que fazem sexo com homens provocou polêmica fora e dentro do governo. A revisão da limitação, uma bandeira do movimento gay, foi incorporada no Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (LGBT). No entanto, por divergências no próprio Ministério da Saúde, o tópico teve de ser retirado às pressas.
Um mês após o lançamento do plano, o Fórum de ONG de Aids cobrou a revisão e só então soube que a meta, de fato, não existia. "Não houve compromisso de reavaliar o tema", afirmou a coordenadora do Programa Nacional de DST/Aids, Mariângela Simão. "O objetivo é outro. O de assegurar a capacitação de profissionais que fazem a captação e triagem", completou. O coordenador do Programa Brasil Sem Homofobia, Eduardo Santarelo, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, lamenta que o erro tenha ocorrido justamente com um dos temas mais polêmicos do documento. Preparado por um grupo interministerial, o plano apresenta 51 diretrizes, que deverão ser transformadas em políticas públicas em curto prazo.
Na versão inicial do plano, uma das diretrizes determinava que o governo deveria rever a "restrição da doação de sangue por parte da população LGBT e capacitar os profissionais de saúde das hemorredes para uma abordagem sem preconceito e discriminação".
A redação havia sido aprovada por todos os representantes, incluindo o do Ministério da Saúde. Quando o documento chegou ao Programa Nacional de DST/Aids, no entanto, veio a reviravolta. Sob a justificativa de que a medida colocaria em risco a qualidade do sangue, o programa conseguiu que a primeira parte do texto fosse retirada, restando a capacitação.
Qualidade dos bancos de sangue pode melhorar ao fidelizar doador
A melhoria da qualidade do sangue usado em transfusões no país depende principalmente da mudança na forma de recrutamento dos doadores, avalia o pesquisador do Departamento de Medicina Preventiva da Universidade de São Paulo (USP) Alexandre Grangeiro. Para ele, tão importante quanto a adoção de testes mais seguros para HIV e hepatites é o esforço de fidelizar doadores com estilo de vida que não aumente o risco para essas doenças. "Não é preciso ter uma grande quantidade de pessoas recrutadas, mas adotar um método racional para captação de sangue".
Atualmente, antes de o candidato iniciar a doação, ele passa por uma entrevista no banco de sangue, para verificar se há o risco acrescido de ele ser portador do HIV. A oferta de doação pode ser descartada, por exemplo, se ele for diabético, caso tenha feito tatuagem, colocado piercing, tenha parceiros sexuais que se submetam a hemodiálise ou sejam homens que fazem sexo com homens. O problema é que isso muitas vezes é feito pelo profissional de saúde de forma agressiva. "Há uma série de relatos de pessoas que se sentem ofendidas diante do profissional", diz Grangeiro.
A pesquisadora Ester Sabino afirma que um trabalho feito na Fundação Pró-Sangue, com orientação para candidatos a doadores, não se refletiu na melhoria da qualidade das bolsas. "A taxa de bolsas coletadas e mais tarde descartadas se manteve, o que mostra um índice alto de informações incorretas passadas pelo doador." Nas campanhas, o lema era: se tiver dúvida, não doe. "Mas há pessoas que se sentem inibidas a contar que se encaixam em alguma das situações de risco".
O coordenador nacional da Política de Sangue e Hemoderivados, Guilherme Genovez, diz que há iniciativas de fidelização que apresentam êxito, como um grupo em Brasília, formado por jovens que, assim que completam 18 anos, comprometem-se a fazer doações e adotam comportamento que reduz o risco de doenças

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