
O ESPELHO
VOLTA AO
SEU LUGAR
por Valéria Piassa Polizzi
Valéria Piassa Polizzi é autora
do livro “Depois daquela viagem” diário de bordo de
uma jovem que aprendeu a
viver com aids.
É jornalista, tem 39 anos e
é soropositiva há 23. O primeiro sinal é estranhar as formas do corpo. A gordura some dos braços e pernas e concentrase no tronco. Veias ficam mais aparentes. Com aspecto desumano, nos sentimos de outro planeta. E o espelho? Melhor não olhar o seu reflexo.
O começo da lipodistrofia, ou SRG (Sídrome da Redestribuição de Gordura), é difícil para todos que vivem com HIV. Segundo especialistas, ela atinge em diferentes graus 80% dos pacientes. E acredita-se que a causa é uma somatória dos efeitos colaterais dos remédios, mais do próprio vírus e alguma pré-disposição do organismo.
Além das áreas de acúmulo e perda de gordura, também pode ocorrer aumento dos triglicérides e colesterol e uma maior
incidência de osteoporose e diabetes. A opinião dos especialistas quanto à prevenção e tratamento é unânime: praticar exercícios físicos – aeróbicos e de musculação – além de uma dieta balanceada e, de preferência, não fumar.
Ainda assim, enfrentar a SRG é uma barra para todos. Durante toda a vida eu pratiquei exercícios, mas quando ela começou a aparecer, larguei a academia. “Já que não tem solução, que se dane!”, pensava. Os médicos insistiam: “Voltar ao normal, talvez não volte. Mas os exercícios ajudam muito. Abaixam colesterol, triglicérides, melhoram o aspecto físico e sintomas de depressão.” Porém, eu relutava.
Até que um dia, um deles me aconselhou: “Esqueça os objetivos a longo prazo. Comece com algo que lhe dê prazer.” E lá fui eu para a piscina. Nada como deslizar na vertical, o corpo leve sustentado pelo líquido que envolve e ampara. Tudo fica azul dentro d’água, ao som de aquário, onde as bolhas translúcidas sou eu quem cria. Ali já não importa minha forma, sou um só corpo com o elemento fluído, que toma a forma, de qualquer forma, de seu recipiente. Sou um golfinho.
Resolvo expandir meus horizontes. Posições esdrúxulas e belas. Alongo cada milímetro do corpo, me equilibro de ponta cabeça, dou um nó com pernas e braços com a arte milenar do yoga. Começo a achar que posso tudo. Puxar ferro, por que não? As repetições desafiam minha perseverança. Cada peso me deixa mais forte. E de série em série a endorfina vai a mil. E não é que percebo renascerem músculos?
Autoestima e sangue agradecem. E o espelho volta ao seu lugar. E se caminho na praia de biquíni e alguém me mede de cima a baixo estranhando a falta de perfeição, sigo em frente com a alma leve. Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é. SV

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